domingo, 8 de março de 2015

Mulher

A fé católica afirma que, sentindo a solidão do homem, Deus lhe tirou uma costela e dela criou a mulher. Na verdade, Deus acompanhou metade do dia de Adão. Sim, metade, pois não conseguiu acompanhar mais do que isso. Entediado e vendo um mundo monocromático, Ele resolveu pintá-lo, musicá-lo, torna-lo vivo. Para isso, fez Adão dormir (o que não foi muito difícil, pois Adão recém havia almoçado e estava cochilando assistindo a um programa qualquer) e tirou dele não uma costela, mas o pedaço mais colorido do seu ser. Desse pedaço, nasceu um ser vibrante, inconstante e apaixonante. Quando acordou de seu sono, Adão viu que o mundo não era mais o mesmo. As cores combinavam, o mundo conversava incessantemente e os sons soavam como uma linda melodia ao ouvido.
É essa a mágica que a mulher opera todos os dias. Somos privilegiados em poder assistir ao show proporcionado por elas sem a necessidade de pagarmos ingressos e taxas. Cada sorriso, abraço e, por que não, reclamação inundam de vida nossa existência. Somente elas conseguem transformar a rotina, fazem o comum virar incomum e, assim, melodiam nosso existir.

Obrigado por serem inconstantes, lindas, mal-humoradas, sensíveis, amáveis, estressadas, mães, filhas, irmãs, avós, tias, primas, namoradas, esposas, enfim, agradeço por estarem aqui, por fazerem parte de nossas vidas.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

De Sócrates à mesmice



Sócrates confrontou Íon com os problemas da sua própria lógica em uma discussão belíssima. Enquanto no bar, a conversa também rolava solta. Já eram mais de onze horas da noite e cada membro da mesa central tornava-se, a cada conversa iniciada, uma vítima em potencial da base psicológica, afetiva e, em alguns casos, econômica do lar. Ninguém era grego, e tirando Sardinha e seu esforço em ser alguém culto, o único Sócrates que conheciam era o doutor e tinha jogado no Corinthias e na seleção de 82. Alheios ao perigo que os aguardava, continuavam as animadas discordâncias boêmias. Sardinha, operário de uma empresa da região e sindicalista ferrenho, defendia a necessidade de reforma política profunda. Teodoro, militar da reserva aposentado, retrucava: comunista! Marcelão, vendedor em uma loja de eletrodomésticos, adorava colocar lenha na discussão e, sempre, afirmava que eram tudo farinha do mesmo saco. Entretanto, uma coisa ele sabia, não dava para o Grêmio jogar com três volantes. Sardinha concordava veementemente, já Teodoro dizia que se o Grêmio quisesse jogar com dez volantes, o problema não era dele, além do mais, o Grenal estava chegando e, com esse time, o Grêmio não ganharia nunca do Inter. E toda vez que falava isso, o militar beijava o escudo do colorado no peito. E assim, seguia a noite, uma conversa posta na mesa e o bar transformava-se na sede da ONU, cada um puxando a brasa para si. Entretanto, ao final das exaustivas discussões, cada um acrescia respeito, admiração e amizade para o outro.
A verdade é que a coisa tá ficando chata. Não existe mais pontos de vistas. O radicalismo, ou qualquer coisa parecida está tomando conta. Hoje, nosso bar, para o bem ou para o mal, são as redes sociais que todos os dias aparecem inundadas de intolerância e falta de receptividade com a opinião alheia. Ao mesmo tempo que o país vai tomando ares políticos e críticos, a falta de diálogo vai ganhando força, fechamo-nos cada vez mais dentro de nosso pequeno mundo de segurança, onde nossos argumentos ecoam eternamente, e omitimos as vozes e lógicas contrárias aos nossos ideais. Discutir virou sinônimo de briga, quando discutir deveria ser sinônimo de evolução, crescimento, alargamento ideológico, entre tantos outros termos mais agradáveis.
Essa semana foi marcada pelo anúncio por parte da direção do Internacional da concretização de um espaço para torcida mista no Grenal. Bem, se a política está se tornando chata devido a intolerância, o futebol já é adulto nessa área. É no mínimo lamentável ter que haver uma iniciativa para isso, quando deveria ser algo natural. Em São Paulo, quarenta e três torcedores corinthianos espancaram quatro torcedores são-paulinos. Foram detidos, sabe quem pagou a fiança?  A própria torcida organizada que afirma que os baderneiros são minoria. No momento em que um torcedor se acha no direito de agredir o simpatizante do time adversário porque perdeu, o rapaz tirou sarro ou não poderia “ter passado ali naquela hora”, perdemos toda a nossa socialidade.
Sorte mesmo teve Sócrates de não ter nascido hoje, caso contrário, a sua discussão com o rapsodo Íon, relatada por Platão, teria terminado com Íon excluindo Sócrates do Facebook, exclamando o tão idiotas são pessoas que pensam como ele e, após uma semana de intenso “diálogo”, espancando o grego em algum metrô.

                Louvado seja que Santa Cruz do Sul não tem metrô!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Quinze minutos com o Big Brother

   Dia desses, eis que acabei por assistir três minutos da edição do Big Brother Brasil 15. Na hora, tirei do canal, não poderia assistir tal insanidade. Entretanto, lembrei de meus vorazes leitores (meus pais e minha esposa) que adorariam ler minha opinião sobre o tema. Parti, então, para a pesquisa de campo. Poderia fazer uma pesquisa, mas as férias não permitiram. Férias, será que o inventor das férias patenteou a ideia? Algo como: a cada funcionário que recebe o direito de férias, a família do pioneiro recebe um valor. Não percamos o foco, Big Brother. Enfim, sem tempo, ânimo, vontade e local, optei por uma exploração minuciosa de quinze minutos em frente à televisão para poder ter material para escrever.
 Guiado pela chamada Heróis, proferida pelo apresentador do programa, criei meu estereótipo baseado na experiência com o valor semântica do termo no país, ou seja, esperei ver um esportista com uma medalha. Por falar em heróis, poderíamos usar a palavra para descrever àqueles que saem de casa cedo, que não fazem a mínima ideia do que venha a ser bolsa de valores, ações, mas que conhecem dívida, salário baixo, trabalho, luta. Dizia um amigo meu que o melhor economista é o cidadão que ganha um salário mínimo, sustenta uma família e ainda consegue fazer o filho(a) estudar e ser alguém na vida. Para ele, esse deveria ser nosso Ministro da economia. Não sei se ele está certo, agora, o que sei é que para o Big Brother esse cidadão não serve. Para receber a alcunha de herói no “simpático BBB”, a primeira exigência é possuir cabelos alinhados perfeitamente. Os cabelos, aliás, são um caso à parte. É impressionante, eles acordam e, sem o auxílio de cabeleireiros ou profissionais da área, conseguem produzir penteados fantásticos. E eles desempenham papel fundamental modelando os rostos femininos milimetricamente maquiados lembrando as novelas mexicanas que tanto sucesso fazem no mundo.
Além dos aspectos citados acima, nos quinze minutos em que estive em frente ao televisor, descobri que as pessoas são falsas, invejosas, conspiradoras, vulgares, entre outros “dramas” enfrentados pelos confinados. Claro, descobri que um determinado supermercado propicia a melhor experiência em compras, tese que discordei silenciosamente, pois não consigo imaginar uma ida alegre a lojas cheias. 
O que consigo escrever sobre o que assisti sobre o BBB15 é isso. Porém, se levar em conta o que li na internet...bem, um casal vai casar com certeza, Marcos (não lembro se é com u ou com o) é o grande vilão da história, ontem teve paredão, entre outras coisas. Cuidado com os quinze minutos...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Consciência

Era um sábado como qualquer outro.  O pai saiu para massagear e admirar o carro com a desculpa de ter que lavá-lo. A mãe, trabalhadora de dupla jornada durante a semana, tomou posse de seu domínio pleno e irrestrito sobre o reino residencial, distribuindo tarefas a seus fiéis súditos que usufruíam dos proveitos de uma cama aconchegante e o alimento na mesa.
Enquanto a ordem natural da casa seguia, em seu mundo, esquecido por um instante, saía o cachorro da casa. Um desses que tem seu pedigree identificado pelo não desenho do focinho e a não uniformidade do corpo, mas era feliz em sua vida e posição naquele lar. Deitou, como sempre, com seu pato de borracha na boca defronte a porta, tudo como devia ser. Até ele ouvir o baque.
O que causara aquele baque ele não sabia, apenas tinha consciência de que tinha consciência. Sim, tinha consciência de tudo e de todos. Seus ouvidos habituaram-se com os sons, seu cérebro passou a processar e dar sentido àqueles ruídos antes indecifráveis produzidos pelas pessoas da casa. Entendia o que conversavam, e mais, pensava sobre o que ouvia, nunca antes raciocinara algo.
Deu-se conta de que tinha um pato de borracha na boca. O cuspiu rapidamente, sentiu pela primeira vez um sentimento repulsivo que, logo, descobriu ser o nojo. O pato era velho e sujo. Como podia ter estado alegre e satisfeito com tal objeto, pensou imediatamente. Sentiu uma náusea momentânea, a língua cresceu como um objeto com vida autônoma, cuspiu novamente, o pato parecia ainda estar ainda em sua boca.
O pai gritou para uma das crianças saírem de perto do carro para não se molhar. A mãe a lembrou que ela tinha afazeres e que deixasse o pai em paz. O cachorro estava maravilhado, entendia perfeitamente cada palavra. O que antes não passavam de barulhos indissociáveis, agora ganhavam sentido como mágica. Ninguém falava com ele, pareciam que não estavam preocupados com a presença do animal. Foi em direção ao pai, quis informar que o compreendia, que poderiam discutir coisas ou, simplesmente, passar o tempo.
- Olá, pode parecer estranho, mas, sim, estou falando.
Tentou ser formal e educado, mas estranhamente o pai não o entendeu, fez um movimento brusco e berrou:
- Sai daqui! Marquinhos! Pega o Fagulha aqui!
Fagulha? Que nome era esse? E por que toda essa indignação? Sentiu mãos ao redor do seu corpo, foi erguido de forma brusca em direção ao peito de uma das crianças. Tentou virar a cabeça para enxergar o que estava acontecendo, mas não obteve sucesso. Tentou argumentar, contudo, novamente, a comunicação não ocorreu. Foi deixado de qualquer jeito nos fundos da residência sem antes ouvir uma reprimenda do garoto por ter estado na frente de casa. Abandonado no ponto esquecido da casa naquela manhã de sábado, sentiu-se injustiçado e ultrajado. Era velho para os padrões dos cachorros, deveria ser respeitado por um garoto tão jovem, além do mais, o que havia feito de tão grave ao tentar conversar com aquele que conhecia há tanto tempo. Começou a se dar conta de sua situação naquela casa. Estava do lado de fora, tendo inúmeras cadeiras e um belíssimo e confortável sofá do lado de dentro. Como sabia os nomes desses objetos e não seu próprio nome? Fagulha? O nome não lhe saía da cabeça. Deveria ter um nome mais pomposo, pensou. Sempre esteve a serviço daquela casa, amou aquelas pessoas, e nem o direito de repousar em um local macio adquiriu.
Sua indignação já era grande quando uma das crianças abriu a porta dos fundos e trouxe um pequeno pote nas mãos, colocou ele no chão e o encheu com ração. Não podia acreditar que o deixariam comer no chão, uma formiga distraída adentrava o pote. Foi a gota da água.
Assistiu incrédulo a família sentada à mesa, compartilhando, ceando e divertindo-se enquanto ele estava do lado de fora, acompanhado apenas de duas formigas que sumiram dentro de sua refeição. Recolheu-se a um canto. A tristeza tomou conta de si. Amaldiçoou o momento em que tomou consciência de sua existência e das coisas que o cercavam. Em sua inocência instintiva de sobrevivência, satisfazia-se com o pouco, mas, agora, que tem consciência do que acontece, enxergou que o desprezo o acompanhava pela casa. Era apenas mais um animal de estimação, nada mais do que isso, um animal de estimação.  Tentou comer a ração junto com as formigas, a fome era grande, mas não conseguiu. A cada tentativa, era violentamente punido por seu pequeno estômago que regurgitava de forma intensa como um exército tentando sair de seu ventre. Exaustou, decidiu repousar, entretanto não encontrou local para isso. A todo canto havia insetos e sujeira, sentiu-se enojado de si mesmo, lambia os pés desses ingratos, murmurou amargurado.   
                Essa situação não ficaria assim, a consciência é uma dádiva que permite que possamos pesar situações e posicionamentos para utilizá-los como base de pensamento para ações futuras. Com esse pensamento, o pobre cãozinho foi em direção ao pote pela última vez, era velho, sujo, todavia havia servido muito bem a ele. Subiu-lhe pelo meio do peito um calor e um desejo de encontrar o pato, imundo, proliferado de bactérias (como conhecia bactérias?) para um último adeus. Limitado pela porta fechada, resignou-se em cantar uma melodia triste e chorosa, uma ode a um pato rejeitado. Ao fim da canção, foi decidido em direção à piscina, daria fim àquela pobre vida.
                No caminho para o momento definitivo de sua vida, um baque. As pernas perderam a rigidez, os olhos ficaram pesados, sentiu o chão rodar, tentou levantar uma pata, contudo ela pesou contra o chão, caiu.
- Marquinhos!
                O grito do pai interrompera o ritual alimentar. Assustou-se com a queda brusca do cachorro, mas tão logo levantou da cadeira, o cãozinho levantou abanando o rabinho e correndo direto para o pote de ração. A consciência abandonara novamente o pobre animal.
- Você, hein pai? Parece que não conhece o Fagulha, esse vive brincando. Cachorro mais feliz não tem.
- Tá certo, filho. Tá certo...
                Achou melhor não mencionar que vira o cachorro sentado nas patas traseiras e apontando as dianteiras para o céu como se estivesse cantando uma música de lamentação.
                Fagulha nunca mais teve baques. Morreu de velhice sete anos depois. O pato sempre esteve com ele e, por vontade da família, foi enterrado junto ao seu corpo. Na sua lápide as ex-crianças escreveram: Cão mais feliz do mundo!

                Tudo uma questão de consciência.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Interpretação



O casamento ocorreu como todos os enlaces religiosos costumam ocorrer. Um rapaz, jovem e imprudente, conheceu uma moça linda e meiga. Ela, no princípio, disfarçou; ele, logo, partiu para o embate. Tomaram uma cerveja juntos. Ele disse que ela era linda, falava a verdade, nunca vira imagem tão bonita. Nos dias que se seguiram, sonhava com aqueles olhos grandes e boca cheia de lábios provocantes. Os cabelos claros formavam uma onda que contornava aquele lindo rosto. Não poderia viver sem ela. Seis meses e quinze encontros depois, pediu-a em casamento junto à família.
A festa foi aquele típico acontecimento social, entrada triunfante no salão, cumprimentos a todos, uma dança especial, um tio que bebeu demais e pegou o microfone para cantar, uma tia falando o quão vulgar era o vestido da noiva, e claro, a viagem de lua de mel com uma noite de núpcias que virou noite de sono devido ao cansaço.
Iniciaram a vida a dois em uma casa aconchegante, presente do pai da noiva. Foi na primeira semana que algumas coisas começaram a aparecer. Ele sentava no sofá aproximadamente 50% do tempo que estava em casa. Ela, mexia de forma irritante em todos os dedos dos pés enquanto assistia televisão. Ele deixava a toalha molhada insistentemente sobre a cama e ela conseguia achar insatisfação em todas as ações realizadas por ele. E assim terminam os casamentos.
A cada atitude incômoda, produziam um pigarro com a garganta de reprovação. Vieram os filhos, três, duas meninas e um menino. E os pigarros aumentaram. O tempo mostrou que os pigarros já não eram suficientes, veio os xingamentos e palavras ofensivas. Os filhos cresceram e as ofensas da mesma forma. Assim, a irritação tornou-se tanta que determinaram: não se falariam mais. Ninguém compreendia o porquê de ainda ficarem juntos, mas a mãe foi enfática: o que as pessoas iriam pensar? Ela, uma mulher de idade, desquitada? Por sua vez, o pai afirmava que não era homem de abandonar uma mulher.
Passaram a repreender um ao outro apenas com o olhar. O pai deixava o chinelo no meio da sala para deitar na cama, e a mulher parava na porta do quarto e apenas com um olhar demonstrava toda sua indignação.
O churrasco de fim de semana era insuportavelmente silencioso e cheio de olhares. Os filhos já não aturavam aquela situação.
- Mãe, isso não pode continuar. Você e o papai são adultos, devem resolver suas pendências como tais.
- Vocês são jovens demais para compreender a situação.
- Jovens? Mãe, já tenho 34.
- Você não entende. Um dia, vocês todos irão entender.
Entretanto, em uma quarta-feira, o pai chegou mais tarde de um jantar com os amigos. Decidiu tomar um banho antes de deitar e deparou-se com roupas íntimas da esposa no chuveiro. Mesmo irritado, tomou o banho e deitou-se silenciosamente. No dia seguinte, encontrou um bilhete no criado mudo. Nele dizia que a esposa cansara das toalhas e calçados atirados pela casa e que a última noite havia sido a gota da água, portanto não mais olharia para ele. Para facilitar as coisas, deixou um itinerário de locomoção dela pela casa com hora, minutos e segundos. Assim, não se encontrariam mais. O pai, ainda revoltado com as roupas íntimas no box, não só aceitou, como também fez o seu itinerário.
A partir daquele instante, não se encontravam mais. Os filhos não acreditavam nessa situação e pensavam que os pais não conseguiriam mantê-la. Organização, eis uma palavra importante em um caso como esse, e ela com certeza estava naquele lar. Os pais moravam na mesma residência, mas não se cruzavam um só instante do dia. Se um estava na cozinha, o outro estava na sala. Com o tempo, os filhos foram se acostumando com a situação, e os netos habituaram-se com a total falta de contato dos avós. E assim, todo domingo o almoço era, em um momento, com o avô, e em outro, com a avó. Todas as noites, antes de dormir, a filha mais velha olhava para o marido e perguntava como seus pais deixaram as coisas chegarem a tal ponto.

Na casa de seus pais, antes de dormir, a mãe desligava todas as luzes deixando o quarto em total escuridão. O bilhete era claro: não iriam mais se ver. Eram felizes. O segredo era a interpretação.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Feliz ano novo

Gosto de ver a passagem de ano como um ritual necessário. Sim, é o calendário que muda, mas a necessidade de mudança existe dentro de cada um de nós. É quase um alento, uma espécie de política “pão e circo” usada pelo Tempo para não desistirmos e deixarmos esmorecer nossas esperanças. Assim, promessas não cumpridas podem ser renovadas, “ano que vem não comerei mais besteiras”, “ano que vem mudarei o ritmo da minha vida”, “ano que vem realizarei meu sonho”. O termo “ano que vem” é o botão de reset que faz com tenhamos a possibilidade, mesmo que psicológica, de reiniciar a configuração. Eliminar os ajustes indevidos e voltar o mais próximo possível da nossa “configuração de fábrica”.
Os fogos de artifício, as peças de roupas novas, a espera da meia-noite e os pratos especiais são todos os elementos fundamentais nessa reestruturação no “maquinário”.
Além disso, o fim de um ciclo serve como momento para pararmos e analisarmos tudo o que passou. Pesar, ponderar e certificar se estamos no rumo certo, se nossas escolhas foram as corretas. Muitas vezes, é nesse instante que verificamos que por mais que a vida possa ser dura e “cruel”, há muito para agradecer e se orgulhar.
Em vez de feliz ano novo, deveríamos desejar coragem, ousadia (talvez, sirva a da música) e audácia! Quem sabe de posse desses sentimentos, possamos efetivamente alterar o indesejável e realizar a manutenção do que vem dando certo.
É assim que acredito que tenha que ser encarado a passagem de ano. Contudo, isso não passa de um mero achismo.


           Coragem, ousadia e audácia a todos!! 

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Almoço de domingo

Talvez, se tivesse experimentado a situação antes, não teria tomado a decisão. O silêncio era mais alto do que lembrava. Sentia-se pequena no apartamento que, um dia, chamara de minúsculo.
Caminhou lentamente até o banheiro, o que o espelho refletia não era mais a garotinha de antes, era uma mulher, tinha se tornado “grande”. Ligou a torneira e deixou a água escorrer lentamente entre as mãos, era domingo, o primeiro em anos. Fez uma pequena bacia com as palmas em formato de conchas para acumular a água, e a jogou sobre o rosto. Estava gelada, mas a sensação não lhe foi estranha. Repetiu o gesto algumas vezes.
Saiu do banheiro, desistiu de tomar o café da manhã, pegou um velho casaco e foi sentar na sacada, alimentando-se do, antes tímido, sol que agora tentava fazer frente ao ar gélido que emanava. Era uma manhã fria, talvez por isso cada raio de sol que tocava seu corpo ganhava importância, era como se estivesse sendo acariciada lentamente. Ficou ali por infindáveis minutos, sem pensar em nada, sem pensar em si e nem nos outros. Não pensava.
Logo abaixo, duas crianças brincavam na manhã gelada como se o frio não estivesse entre elas. Corriam de um lado para o outro, com mil sorrisos para cada uma. Debruçou-se na murada e, por um instante, sentiu vontade de estar lá embaixo, correndo junto com elas, gritando, mas entendeu que não podia mais ter aquele sorriso, ele tinha idade. Alguns conseguem manter a mesma essência, mas nunca o mesmo sorriso. Aquele sorriso não sofrera as cobranças da vida, não havia sido informado que a brincadeira não era o ápice da vida.
Voltou para dentro, ficara muito tempo na sacada, o sol, as crianças e o frio a haviam feito perder a noção de tempo, contudo isso pouco importava, devia satisfação apenas para si mesma.
Pensou em deitar no sofá um pouco. Desistiu. Iria preparar o almoço, foi a geladeira e tirou todos os ingredientes. Colocou-os sobre a pia distribuídos como tropas à espera de uma batalha. Habituou-se a agradar aos outros, precisava aprender a agradar a si. Perguntou-se o que desejava, e, inconscientemente, iniciou um monólogo sobre o que faria no almoço. Discutiu por algum instante, rebateu a si mesma, contra-argumentou, brigou, desistiu, voltou atrás, chorou. Por fim, decidiu por um cardápio.
Realizou o preparo com carinho nunca antes feito, era o almoço mais importante da sua vida. Enquanto casava os ingredientes de forma minuciosa, surpreendeu-se com o bem-estar proporcionado por dedicar-se ao seu bel-prazer. Cada etapa finalizada lhe trazia um prazer indescritível, estar preocupada com seu próprio gosto, sua vontade, fazia com que, de alguma forma, ganhasse vida, ocupasse um espaço que nunca havia se dado conta que possuía.
Arrumou a mesa como que para uma rainha. Os talheres milimetricamente dispostos na mesa vazia. O prato como um senhor da mesa. Olhava ansiosamente para o relógio, cada segundo se arrastava lentamente. Olhou-se de relance no espelho, resolveu passar um batom, colocou o brinco que mais gostava, usou o mais caro perfume, vestiu-se como uma majestade.
O almoço ficou pronto. Serviu-o com muito cuidado, sentou à mesa como se ali fosse um trono.
Como uma rainha assume um reinado, assumiu o comando de seu próprio reino. Foi o melhor almoço de sua vida. Estava plena.