sexta-feira, 14 de novembro de 2014

O sonho

 O sonho

Jeferson Luis de Carvalho

Acordou mais uma vez assustado. Já estava ficando recorrente. Sempre o mesmo sonho. O mesmo restaurante, o mesmo pedido, a mesma garçonete, o mesmo horário, mas principalmente a mesma mulher virando-se lentamente na sua direção. Cabelos escuros, sorriso farto, mirava-lhe diretamente nos olhos. Ele, imediatamente, levantava, caminhava em sua direção, a abordava e sem falar muito a beijava apaixonadamente. Entretanto, o beijo nunca acabava, sempre despertava assustado antes. 
Toda noite era a mesma coisa. Procurou ajuda psiquiátrica, reviveu momentos traumáticos, comprou pílulas milagrosas, nada ajudava, bastava adormecer para o mesmo sonho iniciar. 
Foi a uma cartomante que lhe informou que era um aviso. Uma premonição. Passou a investigar todos os restaurantes da cidade, definitivamente não era dali. Vendeu a casa, seus bens, saiu do emprego e passou a peregrinar por restaurantes pelo país inteiro. Não encontrava.
Descobriu que estava apaixonado por aquele beijo que ocorria todas as noites. Não tinha mais descanso. Tentava pensar em outra coisa, iniciar outros projetos, mas o sonho não o abandonava. Seus recursos financeiros estavam se esgotando. As pesquisas pela internet, as visitas aos mais diversos estabelecimentos, não surtiram efeitos. Não encontrava o restaurante. Após mais uma noite e mais um beijo, decidiu retornar. Pegou sua bagagem e iniciou o caminho de volta.
No ônibus, apoiou a cabeça lentamente no banco e ficou pensando em tudo que havia deixado para trás, na frustração, mas, principalmente, naquele beijo. O beijo mais irreal real que existe. Sim, real. Afinal, pensava, cada fato, cada momento vivido na suposta “vida real”, após a realização, escondia-se no campo da lembrança, dividindo espaço com os sonhos. Portanto, aquele beijo era tão real quanto. 
Absorto em seus pensamentos, entrou no mundo dos sonhos. Como sempre ocorria, à tarde, o restaurante não surgia, a linda morena também não. Na verdade, era apenas à noite, após a meia-noite que ela chegava. Acordou de sobressalto, o ônibus estava fazendo uma parada para o almoço. Desceu a contragosto. Não conhecia aquele restaurante. Apesar do aparente bom movimento externo, o local aparentava uma gradual falta de cuidados estruturais. A tinta estava desbotada e as escadas que levavam para o segundo nível apresentavam buracos em seus degraus. Entretanto, qual não foi a surpresa que teve ao entrar no prédio. O ambiente externo era bem cuidado e lembrava muito um lugar familiar. Não conseguia lembrar qual. Sentou no primeiro banco à esquerda. Nem pensou muito no quer pedir, já sabia há anos. A garçonete ele conhecia muito bem, deixou-a confusa quando deu um olá como se fosse a uma velha amiga. Evitou olhar para frente, teve medo, estava finalmente no restaurante do sonho. 
Ela estava lá. Cabelos escuros, uma indefinição entre o liso e ondulado, como um mar calmo chacoalhado por ondas isoladas. Ela virou e sorriu para ele. Imediatamente, voltou-se novamente para frente. Ele não podia mais esperar, levantou, caminhou até ela. Parou ao seu lado, ela mirou-o de cima a baixo. Ele disse oi. Ela respondeu. Ele a pegou pela mão, ela retirou. Ele pegou a mão novamente, dessa vez ela não recuou. Inclinou o rosto em direção ao rosto dela. Os lábios se tocaram, o beijo guardado é sempre juvenil, intenso em sua primeira liberdade. Foi como no sonho. Entretanto, ele não despertou e pode contemplar o rosto de sua musa com os olhos fechados se afastando lentamente. Ela abriu os olhos, eram como dois furacões atraindo tudo e a todos. 
- Como no sonho, achei que nunca veria você. Estou há três anos pagando cafés nesse mesmo lugar, nessa mesma hora, todos os dias.
 Sonhava com ele há mais de seis anos.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

A foto


          Cortou. De forma firme e decisiva. Doeu, não pôde negar, mas conseguira. Olhava vitorioso o órgão pulsando em suas mãos, vermelho, algumas manchas esbranquiçadas, mas no conjunto, vermelho. A faca resolvera guardar. Fez ele mesmo os pontos. Como um ritual de passagem. Aproveitara o feriadão, três dias em casa seriam suficientes. Passou a antiga mistura da avó, cicatrização rápida. Guardou o órgão em um desses potes de conservas e colocou na geladeira, ao lado de uma velha foto. Que ele sofra, que ele veja, eu serei senhor de meus próprios desejos.
            E assim acordou na manhã da segunda-feira. Não pensou em pegar o telefone, em ligar, não pensou nela. Aliás, pensava com clareza nunca antes experimentada. Estava avesso aos medos humanos. Resolvera poupar tempo. Abriu a janela de sua cozinha e meteu o pé direito para fora. Eram dez andares, mas bastou verificar que a superfície era firme para caminhar pelas amuradas vizinhas interrompendo o passo apenas para saltar para os andares inferiores. Assim, em menos de 1 minuto pedia um táxi.
          Chegou ao trabalho e nunca rendera tanto. O chefe, espantado, lhe deu uma promoção imediata. No almoço, calculou e previu cada movimento, e, antes que os colegas sentassem para comer, já estava servido e sesteando na salinha da repartição.
           Despertou sem precisar de aviso. Pela manhã era funcionário, à tarde era gerente. À noite, seria presidente. A cada empreitada, seu sucesso e domínio eram tão extraordinários e evidentes, que as três promoções seguintes foram lhe passadas pelos antigos ocupantes. Sua lógica era infalível, um diretor, diante de mais uma tarefa impossível realizada, entregou-lhe a chave e pediu demissão. Eram 17 horas e já era diretor. Faltava-lhe a presidência. Estavam há três horas em reunião, acionistas, presidente e os representantes do maior cliente da empresa. O impasse parecia impossível de ser resolvido. Entrou na sala, escutou todas as partes envolvidas, traçou uma saída em menos de 5 minutos. Foi o maior contrato da história da companhia. Os acionistas sem titubear, nomearam-no presidente.
            Um dia, apenas um dia, e seu procedimento cirúrgico havia lhe dado a presidência. Tentou sentir emoção, mas tudo que sentia era um não sentir. Uma não existência. Apenas pensava, raciocinava. Ousou fazer algo irracional, não conseguiu. Tentou escrever algo sem sentido, mas lhe escaparam versos rigidamente metrificados e frios. Extremamente frios. Um desespero lhe tomaria o corpo se tivesse tal sentimento. Lutou para sair da empresa, o corpo não permitiu. Mesmo na rua, a luta corporal foi terrível. Não estava cansado, poderia trabalhar mais, fazer o que em casa? Buscar aquele objeto ilógico para quê?
               Chegou em casa. Não havia excitação, raiva, nada. Apenas, razão. Abriu a geladeira e viu a fotografia. O possível erro, sofrimento, o incorreto. Olhou para seu coração ao lado da fotografia. Pegou ela e olhou. Uma pontinha de emoção veio-lhe à mente. Era isso, identificara o problema. Instantaneamente abriu a camisa e cortou os pontos de forma rápida e direta, lá no fundo, bem no fundo, um pequeno pedaço do que fora seu coração batia bravamente. Cortou-o. Nunca mais sofreu.       

No banco

Jeferson Luis de Carvalho    


      
- Que demora!
- Como?
- Que demora! No atendimento!
- Ah, sim, como sempre.
- Ao menos, estamos sentados.
- É verdade.
- Seguro desemprego?
- Sim, saí mês passado, ou melhor, saíram comigo!
- Isso acontece.
- E você? Trabalha ou trabalhava com o quê?
- Sou matador.
                O sujeito caiu na risada.
- Essa é boa.
- Como?
- Você, matador.
- O que tem?
- O que você faz de verdade?
- Já disse, sou matador.
- Tipo matador, matador?
- É, matador.
- Mas isso lá é profissão?
- Bem, para ganhar dinheiro, limpo vidraças.
- Então você é limpador de vidraças?
- Não, eu sou um matador que limpa vidraças.
- Você ganha dinheiro para matar pessoas?
- Não. Mato pessoas por princípios, não por dinheiro.
- Por princípios?
- Sim, mato pessoas que estejam desperdiçando a vida.
- E como você sabe?
- Ué, converso com elas, abordo, investigo e decido.
- Como assim? Você decide na hora?
- Sim.
- E como ter certeza?
- Certeza?
- Sim, e se você matar alguém enganado?
- O que tem?
- Ora, imagina, alguém morrer enganado.
- Todos erram, é natural, não vejo problemas nisso.
- Mas é uma vida.
- Entre 6 bilhões, uma vida não significa lá aquela coisa. Não sinto culpa, não tenho pretensão de ser perfeito. Costumo acertar a grande maioria das vezes, os erros, são ossos do ofício. Mas, realmente, nunca terei certeza.
- Como assim? É uma vida, um ser humano.
- A vida é supervalorizada, a existência ou não do ser humano não modifica o andamento do restante do planeta. A nossa existência aqui nesta espera, não influência a ordem das coisas. Poderíamos desaparecer nesse exato instante e aquela mulher mexendo no celular nem ao menos notaria.
- E a polícia? Nunca pegou você?
- Sou o melhor no que faço, já matei em uma praça pública. Em pleno domingo. É surpreendente o desespero das pessoas em cuidarem apenas das suas vidas. Você acha que alguém se importa?
- Ninguém deixaria alguém caído no chão sem vida.
- Você realmente acha?
                Nisso, levantou, e antes que o outro pudesse fazer qualquer coisa, acertou-lhe um golpe seco um pouco abaixo da costela. O homem surpreendido sentiu o ar lhe faltar e o grito sair silencioso. O atacante deitou seu corpo lentamente contra a parede e saiu tranquilamente. O homem deixou-se tomar por uma sensação estranha de bem estar. Seus olhos foram fechando, e a última coisa que viu foi o número da sua senha sendo chamado.

                Ao final daquele turno de trabalho, um funcionário da limpeza viu, embaixo de um cliente dormindo, uma mancha de sangue.


terça-feira, 4 de novembro de 2014

A promessa

A promessa

                                                                                                             Jeferson Luis de Carvalho

O parque, ao lado, era o mesmo que lembrava daqueles anos perdidos.  E o campo surpreendentemente ainda apresentava aquela leve inclinação para o lado da “goleira do mercado”. Era domingo, dia de jogo no campo da cidade, e seu filho, “Junior Montanha”, jogaria pela primeira vez um jogo da taça da cidade. Assim que chegou o avistou. Uma cabeça mais alta que a mais alta cabeça em campo. O jogo era entre garotos de onze anos de idade, mas o rapaz aparentava no mínimo quinze. Sentou-se no espaço destinado informalmente aos pais, identificado apenas por uma aglomeração de câmeras fotográficas e rostos vermelhos de orgulho. Acomodou-se ao lado de um senhor miúdo que lhe perguntou qual deles era seu filho, respondeu que era o número 5, recebendo um ar de surpresa causado pelo tamanho do menino.
                O jogo começou. O adversário, um menino ruivo muito inteligente, driblou dois marcadores de uma só vez, deu uma linda “janelinha” no terceiro marcador e... A cena foi forte. O pobre rapaz ameaçou que ia para um lado e foi para outro, porém não contava que Montanha, após ver que perderia a jogada, virasse o corpo, como se estivesse perdido devido ao drible, na direção do habilidoso meio campo. Foi como se o canhoto ruivo encontrasse de frente uma locomotiva, o barulho do rosto no corpo de seu filho foi ouvido da arquibancada. Montanha correu atrás da bola, agora abandonada, e saiu driblando ao seu estilo: levando todos pelo caminho. Os pais do time adversário berravam contra o juiz, mas a verdade é que Montanha fora esperto e maldoso, fez falta sem fazê-la, levantando saudações da torcida.
                Eram 20 minutos de jogo e o placar mostrava 3 x 0, três gols de Montanha, dois meninos adversários machucados e um bravo pequeno guerreiro que jogava com um pedaço de algodão nas narinas devido a uma cotovelada “involuntária” de Montanha. O pai estava abismado com o que via. Seu filho era amado pela torcida do time, movida por um espírito de competição fervoroso, e odiado mortalmente pela torcida adversária. O campo era como o seu domínio, e ali ele era senhor absoluto.
                O segundo tempo começou como terminou o primeiro. Montanha era soberano. A essa altura do jogo, os jogadores adversários já evitavam dividir ou mesmo chegarem próximo de uma bola visada pelo poderoso meio-campo. O jogo já apontava 5 x 0 quando em uma escapada pela esquerda o time adversário conseguiu descontar com o garoto do algodão nas narinas.
                Estranhamente, quando o jogo foi reiniciado, Montanha não correu como uma avalanche monte abaixo atrás da bola, mas sim foi lentamente em direção do artilheiro adversário e falou algo no ouvido do rapaz. Dois minutos depois, o rapaz fez sinal para o banco que estava cansado e precisava sair. 7 x 1, 7 x 1, uma vitória acachapante. Entretanto, o pai não sorria. Entre tapinhas nas costas de outros pais ali presentes, correu em direção ao filho e lhe deu os parabéns. Apenas isso. O filho, por sua vez, sorria orgulhoso de ter feito 7 gols em uma partida.
                Ao entrar no carro, após toda a cerimônia de entrega de troféus, o pai mudou seu semblante. Estava sério e pensativo. O filho radiante pela sua conquista, individual e coletiva, não compreendeu, primeiramente, que o pai estava com um estado de espírito totalmente avesso ao que imaginava. Contudo não haveria cara ou mau humor no mundo que diminuiria sua emoção, ganhara o campeonato, sim, ganhara, com o verbo conjugado na primeira pessoa. Marcara, driblara, fizera todos os gols, era um craque. Brincava distraidamente com um troféu que em sua base apresentava: Melhor jogador da partida! Estava simulando que escrevia as palavras com os dedos, realizando os contornos com o indicador. Em um semáforo, o pai falou:
- Aquele menino, o ruivo, será que se machucou?
- Sei lá, viu como bati e o juiz nem viu?
                O pai olhou de relance para o menino e captou seu sorriso malicioso. Uma lembrança lhe veio à cabeça, uma memória que ele relutava, uma comparação que não queria fazer. O filho perguntou se podiam parar na lanchonete para poder comemorar, o pai afirmou que precisava chegar a casa o quanto antes.
                Antes de entrar em casa, parou na calçada com o carro, um vizinho com seu cachorro aguardava impacientemente o motorista decidir. Falou para Junior descer na frente, precisava ir buscar uma encomenda que havia feito.
                Retornou após duas horas, uma sacola com inúmeros DVD’s. Encontrou a esposa mimando o grande campeão, e pediu para que o filho o acompanhasse até a sala de televisão. O filho correu do lado do pai, troféu de melhor jogador em campo nas mãos. Enquanto o pai colocava o dvd, o filho curioso sentava no sofá.
- O que quer que eu veja?
                E o pai sem dizer nada apertou o play e chaveou a porta. Após duas horas, dez batidas na porta da esposa, o filho saiu com os olhos marejados. A mãe surpresa perguntou o que havia acontecido e o menino sentenciou:
- Não jogo mais futebol! – e correu para o quarto sem ao menos olhar para trás.
                Aflita, a mulher foi ter com o marido, e o encontrou olhando velhas fotos em uma gaveta.
- O que aconteceu com o Junior?
- Mostrei apenas o necessário, a realidade. O futebol é duro, não quero que ele perca o foco nos estudos. Ele tem que fazer uma faculdade, virar doutor, ser alguém na vida, não dá para ficar preso a esse sonho de ser jogador de futebol.
- Mas ele tem apenas onze anos!
- É no início que surgem os sonhos que irão atormentar o futuro. Que farão com que todos os objetivos alcançados sejam pequenos perante o que não foi.
                Incrédula, a mulher saiu do cômodo inconformada com a situação.
                Enquanto ouvia os baques causados pelos passos da esposa no corredor, o homem passou a mão em seu joelho olhando o velho retrato, o time dente de leite do bairro, no qual era a figura mais sorridente, o craque do time. Aquele jogo, aquele drible, a lenta movimentação do volante, a vantagem obtida, a perna surpresa na altura do joelho, a dor lancinante, o sorriso do menino duas cabeças mais alto, a perda do título e de um sonho.  Olhou a cicatriz um pouco acima do início do joelho e lembrou-se da promessa que fez a si mesmo de que nunca mais deixaria que a força prevalecesse diante da técnica. Devia isso ao menino ruivo, ao pequeno lutador e os algodões entancando o sangue nas narinas, mas principalmente, devia ao pequeno menino que nunca mais pode jogar futebol há longínquos 33 anos.

                A bola nunca mais foi vista naquela casa. Junior tornou-se arquiteto e torce para o Fluminense.

sábado, 1 de novembro de 2014

Salmão com molho branco

Salmão com molho branco

      Maldito salmão. Sempre fora feliz. Feliz não, alegre. Jornalista, trabalhava em um jornal da cidade como repórter. Não conseguira o status de ser reconhecido na rua, mas já achava seu nome com facilidade quando pesquisava no google. Morava em um pequeno, mas aconchegante apartamento no centro da cidade.  Levava uma vida típica de um rapaz solteiro e estabilizado financeiramente. Isso significava trabalho duro durante o dia, happy hours no fim de tarde e inexistência de manhãs de fim de semana. Limitava-se a um simples “bom dia” e “boa noite” com seus vizinhos. Esporadicamente falava sobre o tempo, conversa típica de elevador: E essa chuva? Porém, um dia lhe faltou o sal.
        Estava preparando o seu jantar quando reparou a ausência do tal condimento. Tentou recorrer a internet e a alguma sugestão que pudesse ser utilizada, mas descobriu que seu almoxarifado culinário não lembrava em nada aquele existente na casa de sua mãe. Resolveu recorrer ao vizinho do lado. Bateu à porta. Aquele bater envergonhado, em um conflito entre o querer e o não querer que alguém abra a porta. Após um minuto, que lembrou uns dez minutos, uma mulher atarracada abriu a porta, era sua vizinha de porta que ele não lembrava o nome. Feita as devidas apresentações referentes à mera formalidade de não pedir algo a estranhos, informou que precisava de um pouco de sal. A mulher, de forma solicita, pediu para que entrasse. Estavam na hora da refeição, sentados à mesa o homem e mais duas crianças estranhamente felizes. O motivo estava no prato principal, um delicioso salmão sorria para todos, coberto com um molho branco apetitoso. Sem perceber, perdera-se a admirar o saboroso cardápio de forma tão incisiva, que a mulher perguntou se não queria uma “provinha”. Aceitou de prontidão. Triste equívoco.
          Em casa, saboreou cada garfada como se estivesse a desfrutar a ambrosia dos deuses. A comida perdeu o gosto, simples assim. Daquele dia em diante, tudo que experimentava não possuía mais gosto. Após duas semanas, decidiu parar de comer qualquer coisa que não fosse aquele salmão. Tentou fazê-lo em casa inúmeras vezes, encomendou nos melhores restaurantes, mas nenhum era igual ao salmão que lhe despertou para os sabores da vida. Seu desespero maior foi quando soube do falecimento da vizinha. Morrerá sem passar a receita. No velório, diante de um marido e dois filhos estarrecidos, chorava copiosamente diante do túmulo da mulher.
       Passou a definhar, a perda de peso era constante. Os parentes desesperados levaram-no em médicos, clínicas, até tentaram contato com a falecida através de uma sessão espírita, mas em nada obtiveram sucesso. Na sua mente, estavam vívidas as memórias do gosto, sabor e textura.  Nunca mais comera outro alimento. Morreu exatamente 3 meses após o ocorrido. Dizem que morreu dormindo devido à fraqueza, balbuciando alguma coisa. A verdade é que morreu sonhando, sonhando com o salmão com molho branco. Sussurrando qualquer coisa do tipo “não experimente algo que você não pode ter”. Morreu por amor.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Café da manhã


      Aqueles olhos. Não esperava encontrar aquela emoção e força em objetos tão pequenos. Eram profundos como gargantas de um penhasco. Não enxergava o fim daquilo tudo, como um náufrago à deriva, era jogado constantemente em direção das rochas que o machucavam e acariciavam-no por dentro. Não controlava mais a si próprio, teve ímpetos de levantar de onde estava, mas as pernas recusaram o movimento, rebeldes, mostraram que estavam irredutíveis. 
      Uma pequena revolução instaurou-se dentro de si. As pernas, hábeis soldados, plantaram-se no solo e mostraram que não sairiam de suas posições. O tronco, sem muito poder de decisão, virou na direção do objeto de adoração. As mãos inquietas eram como colchões em chamas. O cérebro, refém inocente, tentava processar o que ali acontecia. Como um negociador, travava diálogos teóricos baseados na lógica com os insurgentes. 
      Os olhos miravam os parentes alheios, tentando um contato, um aceno qualquer, entretanto de nada adiantava, como um plebeu a admirar uma realeza, o máximo que recebia em troca era apenas a possibilidade de vislumbrá-los. Austeros, confiantes, suntuosos permaneciam fitando tudo e a todos, menos àqueles pobres olhos hipnotizados. Realeza cruel e insensível, fazia pouco caso da devoção que lhe era atribuída. 

      Fez menção de tomar o controle do corpo novamente e acabar com esse martírio, iria encarar a escuridão da incerteza e conhecer o felizardo ser onde descansavam aquelas pérolas, não obteve sucesso. Contudo, o último ímpeto acabou por revelar a quem devia a autoria da rebeldia: um agitado coração. Pediu ajuda aos pulmões, imediatamente eles sincronizaram-se com o intuito de acalmar o amotinado. No mesmo instante, como um porta-joias resguardando a uma pérola, ela levantou-se suavemente, levando com ela os olhos que ele dificilmente veria novamente. Teve ímpetos de abordá-la, de pedir licença para subtrair as duas órbitas luminosas de sua face ou se declarar seu súdito por toda a existência, mas não, covarde, manteve-se na cadeira enquanto assistia ao afastar gracioso e belo daquela que ali estava. 

      Ao virar a esquina, finalmente os olhos se tocaram. Como que por maldade, somente quando já estavam inalcançáveis, identificou um brilho distinto. Será que fora uma senha? Uma saudação? Ou uma coincidência? Nunca saberia o que fora, e muito menos o que viria a tornar-se. Ficara sentado no banco, e agora tinha consigo a esquina vazia, a xícara vazia, a conta na mesa e um dia de trabalho pela frente. Era segunda-feira.
Profissão de fé

O Big-bang é a teoria mais aceita hoje em relação a criação do universo. De acordo com ela, o Universo é oriundo de uma imensa explosão causada pelo acumulo excessivo de massa em apenas um ponto. Após a detonação, essa massa foi expandindo-se até formar estrelas, planetas, luas e tudo como conhecemos. A criação de um professor não tem todo esse glamour. Não há um acumulo excessivo de massa pronta a estourar, muito menos criação de corpos celestes. Talvez uma pequena explosão interna no canto mais restrito da mente, suficientemente forte para causar o despertar para a profissão. Contudo, as consequências são mágicas.
                Alguns lembram com clareza o momento em que optaram pelo magistério. Brincando em casa com a irmã(ão) mais novo, ensinando e auxiliando os colegas. Eu, particularmente, estou no grupo que lembra. Não enxerguei nenhuma luz, raio divino ou qualquer tipo de providência. Para falar bem a verdade, na época de colégio, em momento algum tive o deslumbre de tomar o rumo da docência.
O mundo e seus mistérios, professores e suas crenças inabaláveis. Valendo-se de Olavo Bilac, professor é profissão de fé. É devoção, é entrega, é pular no abismo sem saber se a corda está bem amarrada no tornozelo, é contar com o inexistente. No conto “O ex mágico da taberna minhota”, Murilo Rubião conta que para encerrar a mágica que brotava involuntariamente da personagem principal, a solução foi a entrada no setor público. O autor, com certeza, não se referiu ao ensinar. É na prática da sala de aula que encontramos a consolidação existencial do objeto de devoção do professor. É no sorriso sincero do aluno ao entender um conteúdo, no agradecimento silencioso por um conselho dado, na gratidão expressa em gestos e ações que está aquilo que imaginamos. Com toda certeza, não há profissão nesse mundo que traga tanto retorno humano como a docência. É esse retorno que nutri o mestre cansado, que desperta o coração mal tratado, que revive o espírito combalido, que o faz olhar para trás e agradecer pela profissão que escolheu.

                Não conseguimos determinar o evento que faz com que uma pessoa escolha essa carreira. Entretanto, podemos ver o que origina-se dessa escolha. Do professor, como em um bing-bang, se originam mundos, pequenos universos complexos e dinâmicos.  É um presente para aquele que ao entrar na sala não abraça apenas uma profissão, mas sim um novo modo de ser. Abstém-se de seu nome de batismo para virar Prof.,Sor.,Fessor.,entre outros.